Pesquisa da Universidade de Oxford e da FGV-Ebape aponta que lulistas e bolsonaristas superestimam posições do grupo oposto e que a correção dessas percepções reduz a antipatia política entre os dois lados.
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| O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro • Foto Marcelo Camargo/Agência Brasil/Waldemir Barreto/Agência Senado/Divulgação |
Entenda o estudo
Uma pesquisa internacional publicada na revista Nature Communications analisou o comportamento político de brasileiros durante o ciclo eleitoral de 2022 e início de 2023. O foco foi medir como eleitores percebem o posicionamento do grupo político oposto e como essas percepções influenciam a rejeição entre adversários.
O levantamento foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford em parceria com a FGV-Ebape e coautores brasileiros, envolvendo entre 2 mil e 3 mil participantes ao longo de cinco rodadas de entrevistas.
Principais distorções de percepção
Os dados mostram que há uma diferença significativa entre o que cada grupo político acredita sobre o outro e a realidade observada na pesquisa.
Entre os bolsonaristas, a estimativa era de que 81% dos lulistas apoiavam a legalização do aborto no primeiro trimestre. O número real, porém, era de 46%.
Já entre os lulistas, a percepção era de que apenas 27% dos bolsonaristas apoiavam políticas de cotas para estudantes de baixa renda. O índice real chegava a cerca de 80%.
Essas distorções indicam um padrão de exagero na percepção das posições adversárias.
Como o estudo foi realizado
Os pesquisadores acompanharam os mesmos participantes em diferentes momentos do período eleitoral, permitindo observar mudanças de opinião ao longo do tempo.
Em cada rodada, os entrevistados eram convidados a estimar a posição do grupo oposto sobre temas políticos específicos. Em seguida, recebiam os dados reais coletados na própria pesquisa.
O objetivo era testar se a correção de informações alterava o nível de rejeição entre os grupos.
Polarização afetiva e impacto social
O estudo trabalha com o conceito de “polarização afetiva”, que mede o nível de antipatia entre grupos políticos, e não apenas divergência de ideias.
Em média, os entrevistados atribuíram nota 72 ao próprio grupo político e apenas 17 ao grupo adversário, em uma escala de 0 a 100.
Após receberem informações corretas sobre as posições do outro lado, a rejeição diminuiu de forma mensurável, sem alterar necessariamente as convicções políticas individuais.
Redes sociais e amplificação de conflitos
Segundo os pesquisadores, ambientes digitais podem intensificar percepções distorcidas, já que conteúdos emocionais e simplificados tendem a se espalhar mais rapidamente.
Esse fator contribui para a ampliação de estereótipos políticos, reforçando a ideia de que o adversário é mais extremo do que realmente é.
Eleições e cenário futuro
O estudo também sugere que disputas eleitorais polarizadas tendem a intensificar esse tipo de fenômeno, especialmente em contextos de forte divisão entre blocos políticos consolidados.
Os autores indicam que a divulgação de informações corretas sobre o posicionamento real dos grupos pode reduzir a hostilidade, mesmo sem alterar preferências políticas.
Conclusão do estudo
Os resultados indicam que parte da polarização política no Brasil não está apenas na divergência de ideias, mas na percepção distorcida do adversário.
A correção dessas percepções, segundo a pesquisa, pode reduzir a rejeição entre grupos sem exigir mudança de posicionamento ideológico.

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